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O laboratório na assistência a saúde

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Data de Publicação: 9 de julho de 2007
Segundo os dados disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes a 2005, existem 77.004 estabelecimentos de saúde no país, correspondendo a um aumento de 17,8% em relação aos existentes em 2002. Destes, 41.943 possuem serviços de apoio a diagnose e terapia, sendo 15.463 públicos e 26.480 privados. O número de postos médicos, nesse período, teve um incremento de 13,2%, atingindo 527.625, correspondendo a 2,9 por mil habitantes. Em relação aos serviços de análises clínicas, em especial, estão registrados 13.801, sendo 4.392 públicos e 9.409 privados.
O número de leitos hospitalares, atualmente em número de 443.210, sofreu redução de quase 6%, mais pronunciada no setor privado. Curiosamente, o número de internações se elevou em mais de 16%, chegando a 23.252.613, em 2004. Destas, 30% ocorreram em estabelecimentos públicos e 60% em estabelecimentos privados.
Esse cenário é semelhante ao observado na Alemanha, há dez anos, como pode ser visto na tabela abaixo:

Alemanha, entre os anos de 1991 e 1996
Número de hospitais reduziu 5%
Número de leitos hospitalares reduziu 11 %
Tempo de internação reduziu 20%
Número de atendimentos aumentou 14%
Número de internações aumentou 8%
Custo hospitalar aumentou 26%

No Brasil, análises clínicas é um dos serviços de maior oferta, junto com ultra-sonografia. O laboratório clínico contribui com menos de 5% dos custos totais do atendimento à saúde, influenciando de 60% a 70% das decisões criticas, as quais incluem a admissão, o diagnóstico, o estadiamento e o estabelecimento do prognóstico, o tipo de terapia mais adequado, a avaliação da resposta ao tratamento e o critério de cura.
Adicionalmente, o laboratório clínico contribui para a definição de estado de saúde e a determinação de fatores de risco para um número crescente de doenças.
Os avanços tecnológicos ocorridos nos últimos anos fizeram com que, para desempenhar suas finalidades, o laboratório incorporasse grande número de custosos equipamentos analíticos que propiciam a automação das grandes rotinas, sistemas de informática que suportam grandes volumes de trabalho mantendo qualidade final e novos procedimentos de gerenciamento de dados e de pessoas, evoluindo, na maioria das vezes, para uma verdadeira empresa.
Em relação ao pessoal habilitado, nitidamente, houve a inclusão de novos profissionais de áreas aparentemente pouco afeitas às biológicas, como engenheiros eletrônicos e de produção, de informática, de administração, constituindo-se, hoje, numa equipe cada vez mais multiprofissional.
Para se avaliar a importância do laboratório frente ao estado de saúde do brasileiro, podemos tomar como exemplo o fato de que 7,6% da população entre 30 e 69 anos, que corresponde a 5 milhões de pessoas, tem diabetes mellitus. Conforme diversos tra¬balhos publicados, cerca de 50% desses pacientes não estão diagnosticados; 22% dos casos diagnosticados permanecem sem tratamento adequado. A maioria dos pacientes que recebe tratamento só monitora a glicemia uma a duas vezes por ano. Muitos pacientes ainda usam a glicosúria para avaliar o controle glicêmico. Mesmo os estabelecimentos de saúde, quando possuem algum recurso de monitorização, ainda utilizam glicosímetros de uso doméstico, inadequados para atendimento comunitário.
Especificamente em relação aos testes laboratoriais remotos (Point-of-care testing), entendermos que uma boa definição pode
ser “O teste laboratorial realizado muito próximo ao local onde o paciente está”. Ele possui, como características principais:
. - Resultados mais rápidos (pressão constante em ambiente hospitalar);
- Inúmeras máquinas (analisadores distribuídos em enfermarias e unidades de atendimen¬to);
- Acessado por inúmeros operadores (pessoal medico, paramédico, pacientes e familiares);
- Utilizado como teste de triagem, monitorização ou definitivo.
Nos Estados Unidos, os testes laboratoriais remotos já somam 25% dos testes diagnósticos, com um crescimento projetado de 12% ao ano e previsão de cobrir cerca de 50% do mercado diagnóstico em 2007. Abaixo, referimos algumas das aplicações dos testes laboratoriais remotos
já consagrados em nosso meio.

- Glicemia: glicosímetros
- Urinálise: fitas reagentes de urina
- Sangue oculto nas fezes
- Bioquímica de sangue básica
Eletrólitos, gasometria, uréia, creatinina, colesterol etc
- Hematologia
Hematócrito e hemoglobina

Coagulação
- Imunoensaios
Gravidez, Aids, marcadores cardíacos, marcadores tumorais
- Virologia e microbiologia
- Triagem de drogas

Além das variações numéricas anteriormente referidas, é importante assinalar que alguns conceitos e posturas tem se alterado significativamente nos últimos anos na área da saúde. A tabela abaixo apresenta os conceitos clássicos e as tendências desenvolvidas mais recentemente.
Conceito clássico Tendência atual
Curar a doença Manter a saúde
Foco na doença individual Foco na saúde comunitária
Pouca informação sobre a eficiência das ações Ação baseada em evidências objetivas
Pagamento por ação Contratos globais
Medição de despesas Administração dos custos
Garantia de qualidade Melhoria continua
Atuação em hospitais Atuação na comunidade
Ação nos laboratórios Testes laboratoriais remotos
Automação Robotização
“Super” especialistas Ação integrada
Testes fenotípicos Testes genotípicos
Fornecedores e empresas independentes Fornecedores e empresas consolidadas

Praticamente, sete companhias fornecedoras respondem por cerca de 75% do mercado fornecedor de equipamentos e insumos para laboratórios clínicos. Temos observado, recentemente, a fusão de empresas tradicionalmente voltadas para diagnóstico de imagem com áreas de empresas do setor de diagnóstico laboratorial.
O próprio mercado produtor de exames laboratoriais, constituído por laboratórios de diferentes tamanhos e estruturas, ainda está pulverizado, mas já existem grandes redes nas quais ocorrem variados tipos de associação, objetivando garantir algum ganho de escala, alguma força na negociação com fornecedores de insumos e equipamentos e com compradores de serviço, em especial os planos de saúde e as seguradoras.
Em relação ao desenvolvimento de atividades profissionais, imagina-se que haverá maior grau de liberdade profissional, oportunidades novas, maiores desafios e acirramento da competição tanto interna quanto externa. As pessoas deverão ser capazes de trabalhar com mudanças, com incertezas, em grupos multiprofissionais, utilizar novas tecnologias, se comunicar eficientemente e, cada vez mais, agregar valor ao produto final, seja ele qual for.
Os usuários dos serviços de saúde terão maiores exigências quanto a acessibilidade as informações, à disponibilidade do serviço, satisfação no atendimento, qualidade global do resultado, preço e valor agregado.
Do ponto de vista clínico, os laboratórios deverão envidar todo esforço no sentido de reduzir o tempo de execução de exame, garantir a melhoria contínua, auxiliar os médicos na indicação dos melhores testes, ser pró-ativo quando forem detectados resultados críticos e, principalmente, assessorar médicos e pacientes sobre exames e resultados. Vale aqui lembrar a frase ainda muito atual de Kibrik e Appleton, dois patologistas clínicos que escreveram o editorial do primeiro número do Clinical Chemistry, em 1949:

“The function of clinical pathologist is to bridge the gap between the investigative scientist and the medical profession. The clinical pathologist alone knows how wide and fundamental this gap frequently is”.

Do ponto de vista econômico, espera-se que o laboratório consiga reduzir a relação custo/beneficio, controlar todos os custos envolvidos na sua atividade, reduzindo, por conseguinte, os custos de atendimento à saúde, adotando uma administração profissional e altamente eficiente.
Do ponto de vista social, cabe ao laboratório controlar natureza do material de consumo utilizado, oferecer maior confiança, segurança e conforto aos pacientes e familiares, reduzir a realização indiscriminada de exames, desenvolver maior relacionamento com as demais especialidades médicas e melhorar o relacionamento com a mídia.

Adagmar Andriolo
Médico Patologista Clínico, professor de Patologia Clínica da Escola Paulista de Medicina - Unifesp, Assessor Médico de Fleury S/A e ex-presidente da SBPC/ML.

Extraído da Revista Gestão Estratégia em Medicina Laboratorial - SBPC/ML


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